Há 12 anos, o Amapá se despedia de Antônio de Pádua Borges. Mas quase ninguém o chamava assim. Para gerações inteiras, ele era simplesmente Lurdico, metade de uma das duplas humorísticas mais importantes da história da Amazônia: Os Cabuçus.

Em um tempo em que fazer humor regional ainda era visto como algo menor, Lurdico e Vardico provaram o contrário. Transformaram o jeito de falar, os costumes, os vícios e as manias do povo da Amazônia em patrimônio cultural. Não riam do Amapá. Riam com o Amapá. E, por isso, permaneceram atuais mesmo depois de tantos anos.

Minha ligação com essa história aconteceu de uma forma improvável. Em 2013 e 2014, eu, um mero estudante de jornalismo, era o criador da página Os Cabuçus da Depressão, uma sátira bastante ácida inspirada na dupla. Era humor de internet em seu estado mais caótico: memes, piadas pesadas, provocações e muita confusão nos comentários. Para muitos, era exagero. Para outros, diversão. O fato é que a página se tornou um fenômeno, alcançando o posto de maior página do Amapá naquele período.

O curioso é que, longe de enxergar aquilo como afronta, Pádua teve outra leitura. Foi dele a ideia de que eu integrasse a equipe que trabalhava ao lado de Nilson Borges, o Vardico, na sua campanha eleitoral. Um gesto que dizia muito sobre quem ele era. Entendia que a cultura também se reinventa, que o humor muda de linguagem e que, às vezes, uma homenagem nasce justamente da irreverência.

Infelizmente, nunca tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Conheci sua filha, Hana Borges, poucos dias depois de sua partida. Mas, de certa forma, Pádua já fazia parte da minha história antes mesmo desse encontro. Em outras palavras, um dos últimos atos em vida do cara foi me arrumar um emprego.

Foto: arquivo pessoal Nilson Borges.

Doze anos depois, sua ausência continua sendo sentida, mas sua presença permanece viva, seja numa piada cabeluda ou numa música do The Final Cut do Pink Floyd. Em cada vídeo que volta a circular, em cada bordão repetido de memória, em cada piada compartilhada por quem cresceu assistindo aos Cabuçus. Há artistas que deixam obras. Outros deixam escola. Antônio de Pádua Borges deixou as duas.

Num estado que tantas vezes precisou rir para enfrentar suas próprias dificuldades, Lurdico foi muito mais que um humorista. Foi cronista do cotidiano, contador de causos e um dos maiores intérpretes da identidade amapaense. Eterno.