Um estudo científico publicado nesta sexta-feira (30) identificou condições inadequadas de balneabilidade em três áreas utilizadas para banho e recreação no Rio Amazonas, em Macapá. A pesquisa analisou a qualidade da água na praia da Fazendinha e nas orlas dos bairros Perpétuo Socorro e Santa Inês, apontando níveis elevados de contaminação microbiológica e possíveis riscos à saúde da população.

Intitulado Cenário das condições de balneabilidade do Rio Amazonas em Macapá, Amapá, Brasil, o artigo foi publicado na revista científica Geoconexões, do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN). O trabalho é assinado por Carlos Vitor dos Santos Pereira, Paulo Gibson Farias Bezerra, Géssica Zila Batista dos Santos e Karina Cardoso Valverde, pesquisadores vinculados à Universidade Federal do Amapá (Unifap).

A investigação foi realizada a partir de coletas de água entre agosto e setembro de 2024. Os pesquisadores avaliaram parâmetros físico-químicos, como cor verdadeira, turbidez e pH, além da presença da bactéria Escherichia coli (E. coli), utilizada como indicador de contaminação por matéria fecal.

O resultado mais preocupante foi identificado nas análises microbiológicas. Segundo o estudo, os índices de E. coli ultrapassaram significativamente o limite de 800 NMP (Número Mais Provável) por 100 mililitros de água, estabelecido como referência pela Resolução nº 274/2000 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

O levantamento apontou uma diferença importante entre os locais analisados. Na praia da Fazendinha, apenas duas das cinco amostras coletadas (40%) apresentaram concentração de E. coli abaixo do limite de 800 NMP/100 mL. Nas orlas do Perpétuo Socorro e de Santa Inês, todas as amostras registraram valores superiores a 2.419,6 NMP/100 mL, limite máximo de detecção utilizado na análise.

A situação das duas orlas é considerada particularmente preocupante porque a contaminação permaneceu elevada durante as cinco semanas de coleta. Na avaliação dos pesquisadores, a persistência dos índices indica a presença de contaminação fecal e compromete a utilização desses trechos para atividades de contato direto com a água.

Cor da água também ultrapassou limites

Outro resultado relevante foi identificado na análise da cor verdadeira da água. Em 100% das amostras dos três locais, os valores ficaram acima do limite de 75 mg/L estabelecido pela Resolução Conama nº 357/2005. Os índices variaram entre 124 e 399 mg/L.

Por outro lado, os parâmetros de turbidez e pH permaneceram dentro dos limites previstos na legislação. Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que esses resultados isolados não garantem a segurança para o banho, principalmente diante dos níveis de contaminação microbiológica encontrados.

O artigo também relaciona o cenário às deficiências históricas de saneamento básico em Macapá. O trabalho cita dados do Instituto Trata Brasil, de 2023, segundo os quais 92,2% da população do município não possuía acesso à coleta de esgoto.

Riscos à saúde e recomendações

A presença de E. coli é utilizada como indicador de contaminação fecal e pode representar risco à saúde dos banhistas. Entre os problemas associados à exposição a águas contaminadas estão infecções gastrointestinais, diarreia e outras doenças de veiculação hídrica.

Diante dos resultados, os pesquisadores classificaram as três áreas estudadas como impróprias para atividades recreativas de contato primário, como banho e esportes aquáticos.

Entre as recomendações estão a criação de um programa permanente de monitoramento da balneabilidade do Rio Amazonas, a ampliação da rede de esgotamento sanitário de Macapá e o reforço da fiscalização ambiental para combater o lançamento irregular de esgoto nos recursos hídricos.

O estudo também sugere análises trimestrais em diferentes períodos do ano, considerando as variações do ciclo hidrológico amazônico, além da ampliação das pesquisas para outros pontos da capital.

Importante: as coletas foram realizadas em agosto e setembro de 2024. Portanto, os resultados representam as condições encontradas naquele período e não substituem um boletim atualizado de balneabilidade.

Fonte: Revista Geoconexões – IFRN⁠. Publicado em 30 de outubro de 2026.