A política é feita de símbolos. E poucos símbolos são tão valiosos para um partido quanto suas lideranças femininas. Elas ampliam o alcance eleitoral, dialogam com segmentos específicos do eleitorado e ajudam a quebrar a imagem de que determinadas siglas são ambientes predominantemente masculinos. Talvez por isso chame tanto a atenção o retrospecto recente do Partido Liberal (PL) com algumas de suas mulheres mais conhecidas.
O episódio envolvendo Silvia Waiãpi, no Amapá, é apenas o mais novo capítulo dessa sequência. Durante a convenção estadual do partido, a ex-deputada federal acusou a legenda de barrar sua candidatura por “racismo estrutural” e preconceito contra uma mulher indígena. O PL rebate afirmando que a decisão foi exclusivamente jurídica, baseada na inelegibilidade reconhecida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e que insistir em sua candidatura colocaria em risco toda a nominata proporcional.
Independentemente de quem tenha razão, o desgaste político já está produzido. Não existe vitória quando uma das principais lideranças femininas do partido deixa uma convenção denunciando discriminação diante das câmeras.
O caso ganha ainda mais relevância quando observado ao lado de outros episódios nacionais. Michelle Bolsonaro, principal nome feminino da direita brasileira e uma das figuras mais populares do PL, também protagonizou momentos de tensão dentro do partido. Divergências sobre estratégias eleitorais, disputas internas por espaço e desconfortos públicos demonstraram que nem sempre o alinhamento entre a ex-primeira-dama e a estrutura partidária foi tão harmonioso quanto parecia.
Há ainda outros exemplos. Deputadas, candidatas e lideranças estaduais frequentemente manifestam insatisfação com a distribuição de recursos, a definição de candidaturas e o espaço destinado às mulheres dentro das executivas partidárias. Não é um problema exclusivo do PL. A política brasileira, historicamente, ainda reserva às mulheres um espaço menor do que aos homens nos centros de decisão. A diferença é que, quando isso acontece em um partido que fez da defesa dos valores conservadores e da família uma de suas principais bandeiras, a repercussão tende a ser maior.
No caso específico de Silvia Waiãpi, há um componente ainda mais delicado. Ela não é apenas uma mulher. É uma das poucas lideranças indígenas de projeção nacional identificadas com a direita brasileira. Durante anos, foi apresentada pelo próprio campo conservador como exemplo de pluralidade ideológica, rompendo o estereótipo de que os povos indígenas estariam politicamente alinhados apenas à esquerda. Ver essa mesma liderança acusando seu próprio partido de racismo estrutural produz um impacto político que extrapola as fronteiras do Amapá.
Isso não significa que a acusação esteja comprovada. Tampouco invalida os argumentos jurídicos apresentados pelo PL para justificar a decisão. São duas narrativas distintas que poderão ser analisadas pela opinião pública e, eventualmente, pela Justiça. Mas, no terreno da política, muitas vezes a percepção pesa tanto quanto os fatos.
Se a legenda estava juridicamente impedida de homologar a candidatura de Silvia, talvez tenha faltado habilidade política para administrar o caso sem transformá-lo em uma crise pública. Se, por outro lado, houve falhas de comunicação ou condução interna, o episódio revela um problema que vai além do aspecto jurídico: o da gestão das próprias lideranças.
O PL cresceu nacionalmente nos últimos anos apoiado em nomes fortes, muitos deles femininos. Michelle Bolsonaro é um dos maiores ativos eleitorais da direita. Silvia Waiãpi tornou-se referência entre conservadores nortistas. Outras mulheres também passaram a ocupar posições de destaque dentro da legenda. Mas um partido que pretende ampliar sua representação não pode se contentar apenas em lançar mulheres para a vitrine. Precisa, sobretudo, demonstrar que sabe mantê-las como protagonistas quando surgem os momentos de conflito.
Porque candidaturas podem ser barradas por decisões judiciais. Crises políticas, quase sempre, são produzidas pela forma como elas são conduzidas.
