A participação do Governo do Amapá na OTC 2026, maior evento de petróleo e gás do planeta, não foi apenas simbólica ou protocolar. A presença amapaense no Brazilian Energy Breakfast, em Houston, mostrou que o estado começa a ocupar um espaço estratégico dentro da nova configuração energética brasileira e internacional. Mais do que falar sobre petróleo, o discurso levado aos Estados Unidos foi sobre posicionamento político, preparação econômica e disputa por protagonismo.

Nos últimos anos, o debate sobre a Margem Equatorial deixou de ser apenas ambiental e passou a envolver diretamente desenvolvimento regional, soberania energética e geopolítica econômica. E o Amapá percebeu isso. Ao defender que “o petróleo é uma ferramenta de transformação”, Wandenberg Pitaluga Filho sintetizou a estratégia que o governo de Clécio Luís tenta consolidar: transformar uma possível riqueza mineral em um projeto amplo de infraestrutura, logística, empregos e inserção internacional.

Existe um ponto importante nessa movimentação. Durante décadas, o Amapá foi projetado nacionalmente quase exclusivamente pelo discurso da preservação ambiental. Isso continua sendo um ativo importante, mas o estado agora tenta comunicar outra imagem ao mercado: a de território economicamente viável, estratégico e preparado para receber investimentos. O recado dado em Houston foi claro. O Amapá não quer assistir de longe a próxima corrida energética do Brasil.

Amapá entre as principais lideranças do setor de óleo e gás do mundo. Foto: José Duarte/WHF

A fala de Pitaluga também chama atenção por outro aspecto: a tentativa de evitar erros históricos vistos em outras regiões produtoras. Ao insistir em palavras como “planejamento”, “governança” e “bases sólidas”, o governo tenta construir uma narrativa de responsabilidade antes mesmo do início efetivo da exploração. É uma mudança importante. O discurso não foi de euforia, mas de preparação. E isso dialoga diretamente com investidores internacionais, que hoje buscam estabilidade institucional e segurança jurídica tanto quanto potencial econômico.

Outro fator relevante é o posicionamento geográfico do estado. Amapá deixou de ser apresentado apenas como periferia amazônica e passou a ser vendido como plataforma logística voltada ao Atlântico, Caribe e mercado internacional. Essa talvez seja a principal virada estratégica do discurso atual do governo. A localização geográfica, antes tratada como isolamento, agora aparece como vantagem competitiva.

No cenário político, a presença do estado em um ambiente dominado por grandes players da energia mundial também possui peso simbólico. Em um momento em que a Margem Equatorial se tornou tema nacional, ocupar espaços internacionais significa disputar narrativa, atrair atenção econômica e mostrar capacidade de articulação. O Amapá parece ter entendido que, antes da exploração começar, já existe uma corrida em andamento: a corrida pelo protagonismo.