Há uma pergunta que deveria acompanhar a chegada de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato ao Amapá: quem está pagando essa conta?
Os dois são políticos em plena campanha eleitoral. Nikolas Ferreira disputa a reeleição para deputado federal em Minas Gerais. Lucas Pavanato, vereador de São Paulo, é candidato a deputado federal pelo PL paulista. Ainda assim, em meio a uma eleição nacional, os dois decidiram deixar suas bases eleitorais para desembarcar em Macapá e participar de um ato político contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
A justificativa oficial é conhecida: pressionar Alcolumbre a pautar um pedido de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes. A escolha do Amapá, entretanto, não é casual. O próprio Nikolas apresentou a manifestação como uma forma de levar a pressão para o reduto político de Alcolumbre.
O que o Amapá tem a ver com uma disputa nacional entre a direita bolsonarista, o STF e o Senado? E, principalmente: quem ganha politicamente com a transformação de Macapá em palco dessa disputa?
A resposta mais óbvia é que Nikolas e Pavanato ganham exposição. O confronto é justamente o tipo de conteúdo que ambos sabem transformar em audiência. Pavanato, inclusive, admitiu recentemente que vídeos de confronto produzem mais repercussão nas redes do que propostas legislativas.
Nikolas também chega ao Amapá em um momento particularmente delicado de sua própria campanha. Nos últimos dias, vieram a público conversas entre ele e Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Banco Master. Nikolas negou ter recebido dinheiro do empresário e classificou as acusações como irrelevantes.
É nesse contexto que surge uma pergunta incômoda: o ato contra Alcolumbre serve apenas para pressionar o presidente do Senado ou também ajuda a deslocar o foco do debate político para outro assunto?
Não é possível afirmar que a manifestação tenha sido organizada para funcionar como uma “cortina de fumaça”. Mas é perfeitamente legítimo perguntar a quem interessa politicamente que a discussão pública esteja concentrada, neste momento, em um ato contra Davi Alcolumbre no Amapá.
Quem está pagando essa operação política?
A viagem de dois políticos de outros estados, a mobilização, estrutura, divulgação, deslocamento e eventual produção do evento têm custos. Em uma eleição, a origem desses recursos não é um detalhe. É informação pública e deve ser transparente.
Aí entra a parte que pouca gente está discutindo. Nikolas e Pavanato têm suas campanhas praticamente resolvidas em Minas e São Paulo e, mesmo assim, estão no Amapá em plena eleição. Para quê? Os dois são do PL, partido que tem uma missão bem maior neste momento: eleger Flávio Bolsonaro. E Flávio, por sua vez, está tendo que administrar o desgaste do caso Dark Horse, que o colocou no radar do STF e acabou virando mais um problema para uma candidatura que precisa crescer.
Então fica a dúvida: será que a operação no Amapá é só contra Davi Alcolumbre? Ou existe algo maior por trás? Porque transformar Davi no novo alvo da direita nacional ajuda a tirar Flávio do centro do noticiário e coloca outro nome para a militância atacar. É uma velha estratégia política: quando o problema está ficando grande demais, muda-se o assunto.
E é justamente aí que aparece a pergunta que ninguém respondeu até agora: quem está pagando essa conta? Quem bancou a viagem, a estrutura, a mobilização e toda essa operação política? Se é uma ação partidária, precisa ser transparente. Se é uma ação de campanha, também. E se existe alguém de fora do Amapá financiando essa pressão, o eleitor amapaense tem o direito de saber quem está colocando dinheiro para transformar o estado em palco de uma disputa nacional.
Pode ser apenas um ato contra Davi. Mas pode ser também uma operação muito maior: enquanto Nikolas e Pavanato colocam o presidente do Senado na mira, Flávio ganha espaço para sair do foco do caso Dark Horse e voltar para o centro da disputa presidencial. No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja quem veio atacar Davi. É quem mandou, quem está pagando e, principalmente, quem pretende ganhar com isso.
