A cultura política do Amapá é única. O que funciona no resto do país nem sempre dá certo aqui.
Muitos candidatos morrem abraçados com marketeiros vindos de fora. Profissionais que pouco se preocupam em pesquisar as peculiaridades do estado e fazem bico quando alguém daqui avisa: “Eu entendo, mas isso não funciona aqui”.
Mas o contrário também acontece. Às vezes, os aspones tucujus se agarram tanto à ideia de que “aqui é diferente” que não deixam especialistas de fora fazerem seu trabalho. Desprezam pesquisa, método e experiência como se compreender o Amapá fosse, por si só, suficiente para vencer uma eleição. Tu jura.
Lembro do meu professor de Marketing Político, o saudoso Carlos Manhanelli. Quando fui a um congresso da ABCOP, a Associação Brasileira de Consultores Políticos, em 2016, em São Paulo, ele me pegou pelo braço e me levou até um grupo de marketeiros.
“Esse aqui é do Amapá. Fala aí pra eles, que nunca foram lá, como é que funcionam as coisas ali. Esses porras colocaram o Sarney pra andar em palafita atrás de voto. Ali é outro país!”, disse ele.
Passei uns tantos minutos contando histórias folclóricas das nossas eleições. De Barcellos a Gilvam, todos ficaram incrivelmente encantados e, ao mesmo tempo, assustados com algumas das histórias que ouviram.
Manhanelli não falava aquilo por falar. Ele conhecia bem as armadilhas do Amapá no período eleitoral. Em 2010, teve a oportunidade de descobrir isso de perto.
Recordo que Manhanelli foi consultor de marketing de Jorge Amanajás, quando o então presidente da ALAP concorreu ao Setentrião pelo quase finado PSDB. Jorge fez uma pré-campanha impecável e liderou boa parte das pesquisas antes do primeiro turno. Mas morreu cedo. Sequer chegou ao segundo turno, ficando atrás de Lucas Barreto e Camilo Capiberibe, então candidatos pelo PTB e PSB, respectivamente.
Anos depois, Manhanelli me contou sobre as pesquisas qualitativas realizadas no Amapá, principalmente nas áreas mais carentes da capital, as famigeradas áreas de ressaca. As principais demandas da população eram segurança pública e saneamento.
Naquela época, quem lembra sabe. As regiões de ponte eram verdadeiros lixões a céu aberto, e a segurança pública vivia uma grande crise. Era recorrente morrer por causa de um celular em Macapá.
E não era uma preocupação qualquer. A segurança pública tinha um peso tão grande para o eleitor naquele momento que os anos seguintes praticamente confirmaram o que aquelas pesquisas já apontavam.
Em outras palavras, a pesquisa feita em 2010 estava apontando para um problema que continuaria no centro das eleições do Amapá por muitos anos.
Mesmo assim, Jorge Amanajás queria que o carro-chefe de sua campanha fosse a educação. Até por causa do Desafio Pré-Vestibular, seu projeto de sucesso, que ofertava curso gratuito para alunos da rede pública e para a comunidade em geral.
Não deu outra. Jorge foi engolido.
E talvez essa seja a parte mais interessante dessa história. Naquele caso, não foi o marketeiro de fora que não entendeu o Amapá. A pesquisa havia entendido. Quem não quis ouvir foi a própria campanha.
Manhanelli, um dos grandes nomes do marketing político brasileiro, também acabou engolido junto com ela.
Aqui, a cultura importa. E muito. Ignorá-la é um erro que já enterrou muita candidatura. Mas usar a cultura local como desculpa para ignorar pesquisa, números e experiência também pode ser um caminho curto para a derrota.
O segredo, talvez, esteja justamente em saber juntar os dois.
Camilo Capiberibe venceu aquela eleição de 2010, mas a segurança acabou se tornando um dos principais tendões de Aquiles de sua gestão. O problema, que já era grave, piorou e passou a dominar ainda mais o debate político.
Em 2014, Waldez Góes voltou à disputa com um discurso fortemente voltado para a segurança pública e encontrou ali uma das principais bandeiras de sua campanha. “Estado Forte, Povo Seguro” virou uma marca daquele ciclo político. Waldez permaneceu no poder até 2022, e a segurança continuou sendo um dos principais temas da política amapaense.
Clécio Luís seguiu pelo mesmo caminho. Hoje, a segurança pública é um dos principais ativos de sua gestão quando o assunto é aprovação popular.
Não adianta chegar de fora com uma campanha pronta, tratando o Amapá como apenas mais um estado no mapa. Mas também não adianta acreditar que conhecer cada ressaca, cada bairro e cada personagem da política local substitui método, pesquisa e estratégia.
Campanha de sucesso é aquela que entende onde está pisando, mas também sabe olhar para os dados.
Aqui, galinha que acompanha marreco morre afogada, como diz Gilvam Borges.
