por ARNALDO SANTOS FILHO

O futebol, como esporte que mais tem aficionados pelo mundo, se destaca pela busca constante por gols, vitórias,  títulos, sucesso e dinheiro. E é essa a essência da competição e da comparação entre clubes, times e seleções.

A famosa frase “Estamos em outro patamar”, que foi dita pelo atacante Bruno Henrique do Flamengo, após um eletrizante empate em 4 a 4 entre Flamengo e Vasco, pelo Campeonato Brasileiro, em 2019, teve uma intenção clara: Demonstrar para o mundo do futebol que o time que ele representava naquela entrevista tinha atingido um nível mais elevado que os demais naquele momento,  o que de certa forma se confirmou na temporada vitoriosa do Flamengo em 2019 e em alguns anos seguintes.

Mas o uso dessa frase como analogia para a presente análise talvez não seja tão bem compreendido, já que vou tentar demonstrar que no caso da seleção brasileira,  podemos afirmar que ela também alcançou um outro patamar,  mas não o que se apresenta em nível mais elevado que as demais, pelo contrário: a seleção brasileira vem ao longo dos anos insistentemente se inserindo nos patamares mais baixos do futebol mundial e isso se torna até fácil de explicar. 

Não há nenhuma seleção no mundo até hoje que tenha participado de todas as copas do mundo. Além disso, não há seleção no mundo que tenha alcançado a marca de 5 (cinco) títulos mundiais, títulos esses conquistados sob a supremacia da qualidade dos nossos jogadores,  que vem desde Pelé e Garrincha,  passando por Gerson, Rivellino,  Tostão, Romario,  Bebeto, Ronaldinho Gaúcho,  Ronaldo Fenômeno e Rivaldo.

Esses exemplos simbolizam toda a qualidade e a competência do jogador brasileiro na disputa dessa competição tão cobiçada pelo mundo inteiro.

Só que essa supremacia, pra nossa tristeza e choque de realidade,  deixou de existir.  E quando se fala que o Brasil hoje está em outro patamar é necessário fazer uma breve retrospectiva pra ver de onde saimos e onde chegamos.

Nosso último título mundial foi conquistado em 2002, na Copa da Coreia e do Japão,  em que nossa constelação de craques mostrou ao mundo diante da poderosa Alemanha quem realmente eram os melhores,   consagrando definitivamente o trio Ronaldo Fenômeno,  Ronaldinho e Rivaldo como monstros do futebol mundial (e que até hoje são venerados em todos os pontos deste planeta através da internet).

E foi com essa base de craques lendários,  aos quais se juntaram Adriano Imperador e Kaka,  que fomos à Copa seguinte,  disputada na Alemanha,  com um time considerado até superior ao de 2002, que tinha Dida, Cafu, Juan, Roberto Carlos, Zé Roberto, Juninho Pernambucano,  Kaka,  Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno e Adriano. Perdemos ainda nas quarta de final para a poderosa França,  que havia sido campeã em cima da nossa seleção em 1998, e que ainda contava com o cracaço Zidane fazendo o seu show particular.  Foi por uma pequena falta de atenção (Roberto Carlos se abaixou pra ajeitar o meião) que Henry fez o gol que nos tirou daquela copa.

Mas vejam bem que estávamos ali numa disputa entre as duas últimas seleções campeãs do mundo, ou seja, uma disputa da mesma prateleira. 

Partimos para 2010, e veio a “Era Dunga” como técnico,  e o Brasil foi muito bem até chegar novamente às quartas de final contra a Holanda,  e mesmo fazendo 1 x 0 com Robinho,  levamos uma virada improvável de uma seleção que mesmo não tendo títulos mundiais é considerada de altíssimo nível,  já que disputou várias finais de copa (inclusive daquela) e inventou o tal de carrossel holandês (que de certa forma revolucionou o futebol).

Partimos confiantes para o mundial de 2014 no Brasil,  e, diante de tantos estádios desnecessários,  tantas obras caras , levamos um técnico vencedor (Felipão) e um time que já não tinha mais as grandes estrelas do penta, mas tinha Neymar no seu auge. Só que 

Neymar carecia de outros jogadores de seu nível para lhe dar suporte, e o Brasil foi passando de fase aos trancos e barrancos , chegando a levar bola na trave no último minuto da partida com o Chile nas oitavas, vencendo nos pênaltis sob choro nervosos de muitos dos nossos e expondo ao mundo que nossos jogadores já nem eram mais tão autoconfiantes como os que lhes antecederam,  o que culminou com a acachapante e inesquecível goleada de 7×1 para a poderosa Alemanha. Mas peraí, ainda estamos disputando no patamar das grandes,  o que nos levou à disputa do 3° lugar e mais uma derrota de goleada para a poderosa Holanda. 

Bem, isso nos trouxe traumas insuperáveis,  pois passamos a virar chacota do futebol mundial.  Só que ainda tínhamos a moral de dizer: “nos respeitem, perdemos para as grandes e temos 5 títulos mundiais”, portanto,  estamos ainda em patamar elevado.

Mas o pior estava por vir:

Em 2018 perdemos nas quartas de final para a Bélgica,  que jamais conquistou uma copa e é considerada da “terceira prateleira” do futebol mundial.

Em 2022 perdemos para a Croácia,  uma seleção emergente,  que chegou a uma única final e jamais foi sequer campeã europeia,  o que nos deixou numa colocação pior que a de Marrocos.

Por fim, após inúmeras mudanças de comando, trouxemos um vitorioso técnico italiano para nos comandar nesta copa de 2026. Uma copa com 48 seleções,  com uma fase a mais, e com um caminho facilitado no chaveamento pós primeira fase, em que pegamos Japão,  depois Noruega e daí ficaríamos a dois passos da final , pegando a “meia boca” Inglaterra caso superassemos a tal Noruega que não tem qualquer tradição em copas.

Mas aí…..deu no que deu!

Hoje posso dizer sem pestanejar (parodiando Bruno Henrique,  mas no sentido contrário):

“ESTAMOS EM OUTRO PATAMAR!”

Só que no patamar abaixo do debaixo.