O Amapá entrou numa fase perigosa da política: a fase em que muitos mandatários parecem mais preocupados em performar simpatia do que apresentar resultado. As redes sociais viraram palco para meme, trend, vídeo forçado de “gente como a gente”, dancinha, bordão e uma caricatura cansativa da chamada “amapalidade”. Enquanto isso, problemas reais continuam esperando solução. Falta debate sério, sobra entretenimento político.
Boa parte da classe política local parece ter entendido errado o papel da comunicação. Comunicação não substitui trabalho. Não adianta postar vídeo tomando açaí, colocando óculos Juliet, ouvindo “rock doido” e tentando parecer popular se, na prática, não existe entrega concreta para mostrar. O eleitor amadureceu e começa a perceber quando existe apenas construção de personagem. A internet consegue fabricar imagem, mas não sustenta mandato vazio por muito tempo.
E os temas realmente espinhosos seguem sendo tratados com silêncio conveniente. A falta de transporte coletivo digno em Macapá se arrasta há anos sem solução definitiva. A qualidade do asfalto em várias regiões da capital continua sendo motivo de revolta diária da população. O desemprego segue atingindo milhares de famílias, enquanto o custo de vida no Amapá se torna cada vez mais absurdo para um dos estados mais pobres do país. Soma-se a isso uma das energias mais caras do Brasil, cobrada justamente de uma população que possui um dos menores poderes de compra da região Norte.
O mais preocupante é que muitos desses políticos evitam até posicionamento claro. Fogem de debates difíceis, não defendem ideias com firmeza, tentam agradar todo mundo e transformam seus perfis numa sequência interminável de conteúdo genérico. Copa do mundo, datas comemorativas, vídeos engraçados e frases prontas viraram esconderijo para quem não quer explicar o que pensa, o que defende e o que realmente fez e faz pelo estado. Falta trabalho?
Só que 2026 pode ser diferente. O eleitorado parece mais cansado da estética do que impressionado por ela. Existe uma cobrança crescente por proposta, trabalho, resultado e posicionamento político sério. O Amapá não precisa de brincantes profissionais ocupando mandato. Precisa de representantes que saibam que política não é concurso de popularidade digital. A fantasia do político “descolado” pode até render curtida, mas dificilmente continuará sustentando voto se não vier acompanhada de entrega real.
