A saída do prefeito Antônio Furlan abriu uma espécie de “pós-choque” em Macapá. Problemas antigos, que por anos estiveram diante dos olhos da população, passaram a ser percebidos com mais intensidade, principalmente quando o ritmo da gestão mudou e o foco saiu dos eventos e entrou no cotidiano da cidade.

Não é que os buracos surgiram agora. Eles sempre estiveram lá. Espalhados por bairros centrais e periféricos, comprometendo a mobilidade urbana, encarecendo o transporte e dificultando a rotina de quem depende das vias todos os dias. A diferença é que, antes, havia uma blindagem construída pela alta popularidade do gestor, somada a uma estratégia de visibilidade baseada em agenda intensa e eventos que ajudavam a suavizar a percepção dos problemas.

Durante esse período, críticas sobre transporte público precário, falhas na educação e decisões urbanísticas questionáveis até existiam, mas raramente ganhavam força suficiente para virar cobrança coletiva. Parte da população preferia relevar, outra simplesmente não enxergava com a mesma clareza. O resultado foi um acúmulo de demandas que hoje aparecem de forma mais crua.

Com o fim dos grandes eventos e a mudança no cenário político, a cidade parece mais exposta. E aí o contraste fica evidente. Ruas esburacadas, dificuldades de deslocamento e gargalos estruturais que não são recentes, mas que agora ganharam protagonismo no debate público.

O momento escancara uma questão importante: gestão pública não pode depender de popularidade para sustentar percepção positiva. Quando o “pão e circo” perde espaço, o que sobra é a realidade concreta. E, no caso de Macapá, ela cobra respostas urgentes.

Mais do que apontar culpados, o cenário exige maturidade da população e compromisso de quem está ou pretende estar no poder. Porque a cidade que muitos dizem estar “descobrindo” agora é, na verdade, a mesma que sempre existiu. A diferença é que, hoje, ficou impossível não ver.